CACHOEIRA GRANDE – 17/03/2018

Assim como da última vez em que estivemos na localidade de Cachoeira Grande, em 2016, o tempo instável e com previsões promissoras acabou descambando para a chuva. No entanto, desta vez ela caiu mais branda e somente no começo da caminhada.

 

Iniciamos a caminhada às 9h, na vendinha do “seu” Álvaro, simpático morador que dá um apoio estratégico ao grupo – especialmente na proteção contra a chuva, que havia começado a cair ainda na estrada.

 

Por sorte, o grupo formado apenas por guerreiras não se intimidou diante da minha oferta de retornar para Niterói, sem ônus, por causa do tempo. Todas toparam andar mesmo nessas condições.

 

E esse esforço foi devidamente recompensado, já que as matas estavam mais viçosas com a rega extra, o movimento de visitantes era quase nulo e a cachoeira – onde chegamos em menos de uma hora de caminhada – estava mais bonita ainda por estar bem alimentada com a água das chuvas.

 

Novamente devido aos riscos desse caudal maior, não pudemos nos banhar no poço da queda d’água. Mas acabamos tomando um banho de corpo inteiro, involuntário, devido ao forte spray da cascata, assim como da outra vez, só de ficarmos alguns minutos apreciando-a de frente.

 

Por isso, permanecemos apenas o tempo necessário para tirar fotos, fazer os eventuais rituais em veneração àquele colosso da natureza e também brincar. Além de ouvir, emocionados, a biblioterapeuta Cristiana Seixas declamar em prosa e verso, a exaltação da força dos elementos, da união e da superação. Uma canja efusivamente comemorada pelo grupo.

 

No retorno, a poucos metros da cachoeira principal, levei o grupo até um poço bem mais protegido, amplo e propício para o banho de rio, onde todas se esbaldaram. Com toda a segurança, é claro, já que o risco de cabeça d’água era improvável, devido tanto à chuva fraca e contínua que caía, quanto pelo fato de a microbacia do Rio Cachoeira Grande não ser tão ampla, e também suas cabeceiras serem bem próximas.

 

Esta explicação serviu para igualmente responder a uma postagem na galeria de fotos da página do Facebook, onde uma pessoa criticava a realização deste passeio em dia chuvoso, em função de um suposto risco maior de cabeça d’água. Pela ausência de tréplica, é sinal de que talvez a mesma tenha entendido a mensagem.

 

De qualquer forma, complementei a resposta informando que, caso a pessoa não tivesse treinamento especializado em atividades como esta, talvez realmente fosse melhor considerar que o risco de cabeça d’água era iminente, como precaução. Algo como identificar todas as serpentes com padronagem de anéis corporais vermelhos e pretos como sendo corais verdadeiras e não eventualmente falsas-corais, em caso de dúvida.

 

Ficamos algo em torno de uma hora nos esbaldando naquele poço mais seguro e totalmente privativo. Inclusive este que vos escreve, que foi obrigado a entrar na água fria para procurar seu óculos, que haviam caído no leito pedregoso do rio no momento em que ia tirar uma foto de participantes. Por sorte o mesmo foi achado, ufa!

 

Às 11h partimos em direção ao Poço da Ponte, que fica uns 300 metros a jusante daquele que acabáramos de sair. Digo, ex-poço, já que a água era tanta que todas as pedras e depressões da calha principal do rio estavam submersas.

 

No entanto, ninguém quis cair mesmo nas piscinas mais calmas e seguras formadas nas margens.

 

Aproveitamos então para relaxar mais um pouco naquele outro belo lugar, além de fazer o exercício do silêncio. Nesse momento o sol ensaiou sair timidamente por detrás das nuvens. Mas agora era tarde…

 

Começamos o retorno pouco antes das 12h, levando menos de uma hora de volta ao Andarilho (a minivan do Ecoando).

 

Até a próxima trilha!

 

Abraços,

 

Cássio Garcez

Coordenador

MORRO DE SANTO INÁCIO – 04/03/2018

Era uma alegria poder resgatar uma atividade há tanto tempo sumida da programação do Ecoando, num dia de tempo bom e com um grupo consistente de participantes.

 

Na realidade, havíamos deixado de incluir esse roteiro no cardápio de caminhadas do grupo há mais de 10 anos, devido a alguns episódios de violência no local – que chegou a ser frequentado por traficantes.

 

Com a melhoria da segurança ali a partir de 2014, devido em grande parte à criação do Parnit e ao consequente aumento da visitação no local, nos sentimos mais seguros de retornar (não sem antes entrar em contato com o administrador do Parque, o geógrafo Alex Figueiredo, para nos certificarmos se estava tudo realmente tranquilo). E não nos arrependemos.

 

Iniciamos a caminhada às 8h30, ao lado do posto da guarda municipal, seguindo a estradinha que liga São Francisco a Maceió e de onde sai a bela trilha. A bem da verdade, a própria estrada já era um atrativo por si, cercada por densa floresta, erma e com muito pouco movimento.

 

Entramos na trilha meia hora depois de caminharmos pela estradinha, subindo bem devagar. Chegamos no topo do Santo Inácio às 9h30.

 

O tempo estava meio encoberto e com muita névoa, permitindo a contemplação das paisagens mais próximas apenas. Assim, víamos a Serra da Tiririca, parte da Região Oceânica e do mar, à nossa retaguarda, e parte da Região das Praias da Baía, à nossa frente. As montanhas do Rio estavam todas escondidas. Mesmo assim, o grupo curtiu muito os visuais possíveis, além do bem-estar de alcançar esse verdadeiro monumento natural que é o Morro de Santo Inácio.

 

Lá lanchamos, tiramos muitas fotos, compartilhamos informações sobre o local e cheguei até a lembrar de um projeto doido de construção de um monumento religioso no alto do Morro da Viração, atualmente parte integrante do Parnit, proposta que felizmente caiu no esquecimento (para saber mais sobre ele, acesse: http://portal.rebia.org.br/cidadania/3809-abaixo-assinado-nao-ao-projeto-religioso-para-o-morro-da-viracao-em-niteroi–rj).

 

Começamos a descida por volta das 11h, conferindo uma nova trilha que dois caminhantes que passaram por nós informaram. A mesma, que desce mais a sudoeste do morro, é bem mais agradável e simples que a original, por onde subimos, por ter mais sombra e menos obstáculos. Obra útil, bem feita e de aparente baixo impacto ambiental – parabéns ao pessoal do Parnit por ela.

 

De volta à estradinha, o grupo topou em peso a visita extra ao Parque da Cidade. Para evitar o movimento de carros e tornar mais variado esse passeio, resolvi fazer um circuito, utilizando várias trilhas, algumas históricas e outras menos conhecidas.

 

No entanto, como há muito tempo eu não andava por ali, acabei descobrindo que o final de uma trilha que segue abaixo e paralela à estrada de acesso ao Parque da Cidade se tornou pista de mountain bike, sem alternativa para quem quiser apenas caminhar com segurança! Por sorte não apareceu nenhum praticante desse esporte adrenérgico durante nossa passagem, caso contrário teria sido sinistro… Algo a ser seriamente questionado com a administração do Parnit.

 

Chegamos ao Parque da Cidade às 12h30, o qual estava, como sempre, cheio de gente e de carros. Esse contraste, entre a paz e a quietude das matas em contraposição àquela muvuca e barulheira, chocou um pouco alguns participantes. Mas, no final das contas, todo mundo acabou gostando dessa diversidade de ambientes e de tribos.

 

O ponto realmente negativo daquele que é um dos principais pontos turísticos de Niterói, é a falta de uma lanchonete de qualidade lá em cima. O food truck que existe no local, foi reprovado por todos do grupo, ou por não ter alimentos e bebidas de qualidade, ou por suas instalações serem bastante precárias. Algo que precisa melhorar e muito.

 

Começamos o retorno aos carros às 13h, seguindo pela trilha do Bosque dos Eucaliptos – que sempre encanta quem anda por ela. A não ser pelas placas de propriedade particular do Hotel Panorama, da empresa imobiliária Capital 1, que anda querendo fechar aquela área do Parnit e suas trilhas.

 

O argumento dos empresários que se dizem donos do local e que já deram a entender que não querem visitação ali, é de que a área é deles e por isso é seu direito vedar a entrada de “estranhos”. Mesmo com as décadas de uso consolidado como área de lazer do niteroiense e da lei que decretou aquela unidade de conservação.

 

Tomara que nesta briga, vença o bom-senso e a precedência do direito difuso sobre o interesse particular.

 

Abraços,

 

Cássio Garcez

Coordenador

MORRO DA URCA (adiado do dia 24/2) – 03/03/2018

Esta atividade do Ecoando, adiada do dia 24/2 devido a uma chuva inesperada, também substituiu a Travessia Horto-Jardim Botânico, esta cancelada devido aos possíveis reflexos do aumento da violência na Rocinha nas trilhas deste setor do Parque Nacional da Tijuca.

 

Embora o dia estivesse meio enevoado, com muitas nuvens e a visibilidade comprometida, a temperatura estava mais amena, talvez justamente por conta dessas condições.

 

Iniciamos a caminhada pouco depois da 9h, seguindo pela Pista Cláudio Coutinho até a entrada da trilha, que ganhou um terraço de madeira e outros melhoramentos realizados pela Companhia Caminho Aéreo do Pão de Açúcar, concessionária dos serviços dos bondinhos e do uso comercial dos topos do Morro da Urca e do Pão de Açúcar.

 

Embora esses melhoramentos da trilha – que incluem a instalação de escadas de madeira, trechos de pavimentação de pedra e corrimãos – possam ser questionáveis para muita gente, por descaracterizar uma via primitiva, os considero pertinentes e necessários, haja vista o excesso de gente caminhando diariamente pelo local.

 

Na minha humilde opinião, se não fosse por tais intervenções, a erosão do solo e a degradação da vegetação certamente gerariam mais prejuízos do que a simples descaracterização. Sem contar que a concessionária também está fazendo uma recomposição de flora no local.

 

Chegamos ao portão de entrada da área turística do Morro da Urca às 10h30, sendo recepcionados por dois tiês-sangue machos, com sua inconfundível plumagem vermelho-púrpura.

 

Depois dos banheiros, perambulamos por cada canto daquela babel de turistas nacionais e estrangeiros. Naquele burburinho, volta e meia parávamos para eu repassar ao grupo informações sobre a geografia do Rio, sobre a história de sua fundação e sobre outros temas ligados à bela paisagem que admirávamos.

 

Já na volta, no play-ground ao lado da estação do bondinho que vai para o Pão de Açúcar – onde agora há um plano inclinado que acompanha a escadaria, destinado a pessoas com limitações de mobilidade – pedi para que seu condutor  desse carona ao participante mais jovem do grupo, de 6 anos de idade, e sua mãe, já que o veículo retornaria vazio, após deixar uma visitante onde estávamos.

 

Pedido atendido e agradecido, dava gosto de ver a alegria do garotinho em atender seu pedido de andar de “bondinho”, mesmo não sendo o original.

 

Logo a seguir, lanchamos num dos locais mais tranquilos daquele movimentado pólo de visitação turística, ao lado de um bem cuidado muro de plantas nativas.

 

Começamos a descida por volta das 12h, já preocupados com nuvens negras e não previstas pela meteorologia para aquela hora. As primeiras gotas começaram a cair quando passávamos pelo mirante de madeira da cumeeira, apertando ainda no meio da descida.

 

Como diz o ditado, “quem está na chuva é para se molhar”, não nos preocupamos em colocar capa, apenas descer com mais cuidado. Por sorte o grupo era composto apenas por gente que curte até mesmo esses presentes inesperados da natureza. Tanto que ouvi exclamações, como: “que delícia de chuva!”, “que barato!” e outras demonstrações de felicidade diante do episódio.

 

No final da trilha, onde chegamos sãos e salvos e sem nenhum tombo, paramos alguns minutos embaixo do terraço (onde já havia uma multidão fugindo da chuva), para eu pegar meu poncho e assim poder proteger a mim e a quem mais quisesse se apertar embaixo dele.

 

Para minha surpresa, só o participante mirim quis se proteger sob o impermeável, ainda assim talvez mais pela possibilidade de brincar com aquilo do que fugir da chuva – mesmo essa tendo apertado bem. O restante do grupo preferiu continuar caminhando embaixo do toró.

 

Chegamos de volta ao Andarilho às 11h30, ensopados. Desta vez, no entanto, a minivan do Ecoando não estava ilhada, como na última visita que fizemos ao Morro da Urca, em 2015.

 

Choveu tanto naquela ocasião, que tivemos que descer de bondinho e eu entrar pelo porta-mala do carro, que ele estava cercado por uma poça gigantesca!

 

Enfim, uma caminhada nunca é igual à outra. Até a próxima trilha!

 

Abraços,

 

Cássio Garcez

Coordenador

ILHAS MARICÁS EXTRA – 01/03/2018

Como este é um dos roteiros mais espetaculares da Região Metropolitana do Rio, além de ser de difícil acesso devido às raras condições de tempo e de mar para realizá-lo, quisemos aproveitar a janela de ondas fracas e probabilidade quase nula de chuva para desencantá-lo de uma forma inesperada na programação do Ecoando. Ou seja, em pleno dia de semana.

 

Afinal, como vínhamos tentando cumprir esse passeio desde o dia 27 de janeiro sem sucesso e diante da perspectiva de não conseguirmos isso ainda este ano, era pegar ou largar. E pegamos, até porque tínhamos quórum para esta nova tentativa.

 

Assim, com tudo preparado, chegamos à Praia do Francês (de onde saem as voadeiras para o arquipélago) às 7h em ponto. Mas embarcamos somente meia hora depois, aguardando o Manel voltar da faina de pesca. Este pescador, o mais antigo, experiente e respeitado daquela área, seria o nosso barqueiro, como sempre. Afinal, com aquele mar não se brinca.

 

Chegamos à Praia da Galheta, já na Ilha Maricá (a maior do arquipélago), às 8h. Não nos demoramos nos preparativos e na preleção, começando a caminhar 15 minutos depois, em direção ao lado sudoeste da ilha.

 

Ao longo do caminho, íamos apreciando tanto as belezas insulares, quanto aquelas do continente. Embora a visibilidade não fosse das melhores, já que havia uma névoa ao longe, conseguimos identificar as principais montanhas do Rio, de Niterói e de Maricá, entre elas o Alto Mourão e a Pedra da Gávea.

 

Nas paradas eu ia repassando ao grupo uma síntese da rica história do local, pesquisada durante anos, como as origens do topônimo Maricá, a visita de populações pré-históricas, de índios, de corsários e até de revolucionários – como Giuseppe Garibaldi -, e dos naufrágios ao seu redor.

 

Contei também a respeito da rica biodiversidade marinha que faz do arquipélago o mais produtivo em pesca embarcada em Maricá, posição esta ameaçada por empreendimentos e projetos de alto impacto ambiental, como o emissário do Comperj, o porto de Jaconé e o descarte de material de dragagem da Baía de Guanabara, sobre os quais também comentei com o grupo. Isso porque, para melhor proteger e valorizar o lugar visitado, é preciso também conhecer criticamente seus problemas.

 

Aliás, considero importante esclarecer um ponto controverso a respeito da proteção das Ilhas Maricás na categoria Refúgio da Vida Silvestre de Maricá, homologada em 2013 e festejada por muita gente como uma vitória para o meio ambiente.

 

Na realidade, os 80 hectares de proteção ambiental ganhos com essa lei municipal (referentes apenas à parte emersa das ilhas), foram uma espécie de tentativa de compensação, ao melhor estilo cobertor curto, dos 187 hectares retirados da área marinha protegida da mesma unidade de conservação, em Jaconé, pelo mesmo documento legal. E efetivado de maneira totalmente questionável

 

Desta forma, mesmo o poder público municipal não sendo o órgão responsável pelo licenciamento de grandes obras, como portos, tal manobra se caracterizou como o segundo sinal verde da prefeitura e do legislativo maricaense para a construção dos Terminais Ponta Negra (TPN. O primeiro havia sido uma lei que alterou o uso do solo na área de residencial para industrial de grande porte, voltado para a construção naval, óleo e gás, portos e similares. Sob medida para os empresários!).

 

Para quem não o conhece, o TPN trata-se de um projeto bilionário e privado de terminais portuários, estaleiro e empreendimentos de óleo e gás, entre outros, que se pretende o maior terminal de granéis líquidos do Hemisfério Sul, planejado para ocupar área de 573 hectares, no início da Praia de Jaconé. Assim, além de extremamente impactante para o meio ambiente marinho e terrestre, o mesmo também destruiria ou descaracterizaria os beachrocks, monumentos geológicos de extrema importância histórica descritos por Charles Darwin, o pai da teoria da evolução, quando de sua passagem pelo local, em 1832. Sem contar os prejuízos para a pesca, moradores, turistas, veranistas, etc.

 

Seguindo o script do empresariado e de seus aliados políticos populistas, em janeiro de 2015, o governador Pezão baixou um decreto declarando as áreas para implantação do TPN como de utilidade pública, escandalosamente antes do licenciamento, permitindo assim o desmatamento inclusive de Áreas de Proteção Permanente (APPs) e outras intervenções altamente degradadoras. Na sequência, em julho do mesmo ano, o Inea expediu Licença Prévia, a despeito de todas as irregularidades e incongruências do processo.

 

Caso o Ministério Público Estadual não tivesse comprado a briga, entrando com uma Ação Civil Pública embasada pelo Grupo de Atuação Especial em Meio Ambiente (Gaema), também em 2015, essa obra megalômana, desproposital e que prejudicaria também a biodiversidade das Ilhas Maricás, já teria recebido a Licença de Instalação e possivelmente estaria a todo vapor. O que importa é que a liminar que impede a construção do TPN devido à importância dos beachrocks, continua de pé, mesmo diante de toda a pressão política. Que continue assim, para o bem da vida marinha, da qualidade de vida e da atividade de pesca artesanal nos litorais de Maricá, de Saquarema e de Niterói.

 

Voltando à caminhada, chegamos ao farol da Marinha pouco depois das 10h, continuando até o Cemitério dos Mariscos, que alcançamos em meia hora de andança por trilhas de pescadores e por rochas que lembram uma superfície extraterrestre.

 

Exploramos cada canto daquelas espetaculares formações, aproveitando para lanchar à sombra de um abrigo rochoso. Saímos de lá às 11h30, em direção ao lado nordeste da ilha.

 

Em determinado momento, vimos um cardume de arraias-chita bem na beirada das rochas, aparentemente se alimentando, uma cena rara e emocionante. No afã de conseguir o melhor ângulo para a foto, este guia se descuidou de uma das mais caras regras de segurança em ambiente remoto e em rochas – a de não correr em terreno acidentado. E acabou levando um tombo.

 

Segurando uma pesada câmera profissional com as duas mãos e sem espaço para se recuperar da “catação de cavaco” naquele terreno irregular, o resultado não poderia ter sido outro: antebraço direito todo ralado e um mau jeito no mesmo ombro. Por sorte, nada mais além disso, que foi devidamente resolvido com os primeiros socorros. Pena que não houvesse um curativo para o orgulho ferido do guia, este bem grave.

 

Lição (re)aprendida, reagrupados e recuperados do susto, continuamos o regresso normalmente.

 

Na chegada à Praia da Galheta, duas participantes preferiram não continuar na segunda etapa da caminhada – a visita à ponta nordeste da ilha. Isso porque o sol e o calor sacrificariam muito quem se dispusesse a encarar esse desafio, além dos obstáculos serem um bocado mais complexos que os do primeiro trecho.

 

Assim, apenas eu e um participante visitamos as prainhas da Fenda e do Saco, onde chegamos depois de  20 minutos de caminhada. Retornamos depois do banho de mar na enseada da Prainha do Saco pelo mesmo caminho, chegando às 14h de à Praia da Galheta.

 

A cena era cômica: nossas colegas estavam de molho nas límpidas e cristalinas águas daquela praia, com latas de cerveja na mão (ganhas de outro visitante), nos chamando para mergulhar e rindo sem parar – isso porque as mesmas bem sabiam da proibição de bebidas alcoólicas durante as atividades do Ecoando. No entanto, como já estava no final e não haveria mais nada para se caminhar, tudo bem, consenti que aproveitassem bem daquele presente inesperado (que inveja…).

 

Ainda demorei a decidir se cairia ou não na água, devido aos ferimentos. Mas, como seria mesmo necessário refazer todos os curativos, relaxei e compartilhei com o grupo aquele momento raro de relaxar numa praia remota, límpida, praticamente deserta e em pleno dia de semana. Prova de não é preciso ser rico para desfrutar de alguns privilégios.

 

Reembarcamos na voadeira do Manel às 15h, como o combinado. Mas, ao invés de pegarmos a direção da praia, o barqueiro nos deu a canja de passar por entre as Crioulas, lajes negras que ficam no lado nordeste do arquipélago, enriquecendo ainda mais um passeio inesquecível.

 

Na arrebentação, surfamos sobre a maior onda da série, pousando quase suavemente nas areias da Praia do Francês, 20 minutos depois, sãos e salvos.

 

Desencantávamos assim, a tão esperada visita às Ilhas Maricás. E eu, relembrava a duras penas, depois de mais de 30 anos orientando caminhadas ecológicas, um de seus ensinamentos mais basilares: o de não descuidar jamais da própria segurança, e não apenas a do grupo! Afinal, ambas estão intimamente ligadas.

 

Abraços,

 

Cássio Garcez

Coordenador

PICO DO SACOPÃ (substituindo a TRAVESSIA JARDIM BOTÂNICO-PAINEIRAS) – 04/02/2018

Devido às notícias sobre novos e recentes episódios de aumento da violência na Rocinha – além de enfáticas recomendações de policial que conhece bem a área onde andaríamos, para evitá-la -, tomei a decisão de cancelar o roteiro originalmente marcado para esta data, a Travessia Jardim Botânico-Paineiras, substituindo-o por este.

Isso porque, as trilhas daquele setor do Parque Nacional da Tijuca (Serra da Carioca) não raras vezes – quando a chapa esquenta – são usadas como rota de fuga ou esconderijo de alguns bandidos que debandam daquela favela. Daí, todo o cuidado é pouco.

No Pico do Sacopã, embora também na Zona Sul do Rio, não correríamos esse risco de dar de cara com fugitivos, pois o mesmo se situa no Parque da Catacumba, uma unidade de conservação municipal que é uma ilha de tranquilidade no burburinho da Lagoa Rodrigo de Freitas.

Além disso, o lugar tem apenas um acesso, possui vigilância e é bastante frequentado por famílias, caminhantes e praticantes de arvorismo. E não decepciona em seus atrativos cênicos, históricos e geológicos.

Assim, explicado o motivo da alteração na programação e com o sentimento do dever de sempre priorizar a segurança dos participantes cumprido, passemos ao relato da atividade.

Iniciamos a caminhada antes do horário planejado, às 7h30, dando uma volta na orla da Lagoa para aguardar a abertura dos portões do Parque.

Nesse inesperado passeio, tivemos a oportunidade de observar o desenvolvimento do manguezal plantado pelo biólogo Mário Moscatelli ao longo de anos de trabalho solitário e abnegado; aves como frangos-d’água, socós, urubus e fragatas em suas rotinas; e o diversificado movimento de frequentadores. Apenas um aquecimento para o que viria depois.

Um pouco antes das 8h, atravessamos a passarela e chegamos ao Parque da Catacumba, encontrando os portões já abertos.

Começamos a caminhada propriamente dita depois dos preparativos e do bate-papo, chegando no Pico do Sacopã por volta das 9h. Não havia ninguém além de nós lá, assim como na trilha.

Embora as vistas desse mirante natural sejam realmente espetaculares – abrangendo desde as Ilhas Cagarras e Tijucas, até os morros Dois Irmãos, Pedra da Gávea, Maciço da Tijuca, Lagoa Rodrigo de Freitas e o Corcovado – o crescimento da vegetação está limitando-as – o que não é algo a se lamentar, pelo contrário. É sinal do sucesso da restauração florestal que vem sendo feita há décadas.

Esta e outras informações sobre o local – que já foi um suposto cemitério indígena (daí a razão do nome “Catacumba”, para o Parque), onde existiu até a década de 1970 uma favela com mais de 10 mil moradores e que já fez parte de uma fazenda gigantesca – eu ia repassando ao grupo, à medida em que íamos caminhando. Assim como curiosidades dos arredores e de episódios insólitos (como a primeira guerra biológica que se tem notícia nas Américas, de colonos portugueses contra os índios).

Com a chegada de um pequeno grupo, partimos para o outro mirante, o do Urubu, de vistas mais abrangentes, distante alguns minutos apenas do primeiro.

De cima da estrutura de madeira e tubos de aço, pudemos curtir melhor as vistas, inclusive da imponente Pedra do Cantagalo, que é contígua ao Parque. E também observar uma revoada de dezenas de urubus logo acima de nós, aproveitando uma térmica (corrente de ar ascendente) para subir. O nome do mirante não poderia ser mais adequado.

Começamos a descida pela outra perna da trilha, chegando lá embaixo às 10h30, satisfeitos com a proveitosa substituição de roteiro. Embora eu, no íntimo, estivesse um pouco frustrado de ter sido obrigado, pela violência, a alterar a programação de atividades.

Até a próxima trilha!

Abraços,

Cássio Garcez
Coordenador

CIRCUITO CASCATAS DO RONCADOR – 03/02/2018

Começamos a caminhada às 8h em ponto, aos pés da Serra do Roncador, em Sampaio Correia.

 

A manhã estava inusitadamente fresca e com cara de outono. Entre os espaços de azul profundo no céu, havia nuvens mais escuras, pesadonas, porém isoladas e sem jeito de chuva – o que confirmamos ao longo do dia.

 

Com receio de encontrar muita gente mais tarde, na cascata de mais fácil acesso (a que tem o mesmo nome do roteiro), resolvi prevenir e levar a dupla de caminhantes primeiramente até ela. Chegamos lá às 8h30 mais ou menos.

 

O sol sequer tinha alcançado as rochas por onde a outrora imponente queda d’água começava a cair. A mesma continuava tão minguada quanto da última vez em que estive com o grupo ali, no seco mês de maio do ano passado. E isso apesar das chuvas que vem caindo razoavelmente bem na região, neste verão.

 

Fiquei conjecturando os motivos do ressecamento desse rio e cheguei à hipótese de que a razão poderia se dever ao aumento da demanda de veranistas pela água captada mais acima, pela concessionária do grupo Águas do Brasil – sem contar o desflorestamento do vale, as alterações no curso do rio, etc.

 

Tanto que, quando passamos pelo reservatório, o mesmo estava bem baixo e com ruído de água vertendo sem parar pela tubulação. Um problema (o aumento exponencial da demanda versus a queda na capacidade de produção da água) que infelizmente só tende a piorar com a continuidade desse modelo de crescimento sem limites adotado como paradigma por quase todas as sociedades humanas contemporâneas.

 

Ficamos aproximadamente 40 minutos curtindo a paz daquele belo lugar, totalmente sozinhos. Aliás, só encontramos dois moradores durante a totalidade do passeio, ainda assim em trânsito pelas trilhas. Verdadeira raridade, em se tratando da Costa do Sol, de um lugar de veraneio de grande procura e onde há cascatas de relativo fácil acesso. Que o mesmo permaneça assim, é nosso desejo!

 

Prosseguimos pegando uma trilha que nos levou a outra estrada, onde adentramos nova trilha – plana, bem sombreada e que nos levou direto ao tal reservatório.

 

Dali, pegamos um caminho que nos foi dando acesso aos três outros poços, em dois dos quais tomamos banho.

 

No primeiro, uma pequena mas consistente queda d’água caía num buraco de aproximadamente três metros de profundidade, onde a água é bem fria – justificando o antigo topônimo da Serra do Mato Grosso, que abarca a Serra do Roncador: Urussanga ou água fria.

 

Depois de nos refrescarmos bem, seguimos para o próximo poço, que é abrangido por uma propriedade particular onde algumas alterações bastante nocivas ao meio ambiente e ao cenário foram adotadas há alguns anos atrás – como desmontes de terra, afixação de canos e terraplanagem.

 

Assim, embora a segunda queda d’água fosse interessante, aquelas alterações maculavam um bocado de sua beleza, desmotivando-nos a cair na água.

 

Por isso, não nos demoramos ali, subindo um pouco mais até um recanto onde existe uma piscina natural rasa e de águas cristalinas, e onde encontramos em nossa última passagem por lá, em maio de 2017, uma calha de bambu canalizando parte das águas de uma corredeira que desliza sobre uma bela rampa natural de rocha. Lamentavelmente tal calha estava jogada em um canto do lago, rachada.

 

Como eu havia prometido que tomaríamos um dos melhores banhos do passeio neste local, não perdi tempo: improvisei sustentáculos e reparos com cipós para esta calha, de modo que pudéssemos receber uma refrescante ducha sentados nas nesse poço.

 

Demorou um pouco e deu um certo trabalho, mas consegui cumprir a promessa. O difícil era aguentar as beliscadas que os inúmeros pitus (camarões de água doce) safadinhos davam nas partes do corpo em contato com a piscina natural. Um doce problema, já que esses crustáceos são bioindicadores de altíssima confiabilidade da qualidade das águas.

 

Ao sairmos dali, meia hora depois, desfiz a estrutura, já que, como usei cipós vivos para manter suspensa a calha, os mesmos poderiam ficar prejudicados pelos nós. Assim, deixamos tudo como havíamos encontrado.

 

Na descida, fomos recolhendo um pouco das dezenas, talvez centenas de mangas caídas ao longo dos caminhos, apenas aquelas inteiras e maduras. E também comendo os jambos que estavam nos galhos ao nosso alcance. Passamos muito bem, pois.

 

Chegamos de volta ao Andarilho às 14h, perfazendo exatamente as seis horas indicadas na programação do roteiro.

 

Na estrada de volta, o tempo abriu completamente e passou a fazer muito calor lá fora. Felizmente, estávamos tão refrescados devido aos banhos no Roncador e ao ar condicionado do Andarilho (a minivan do Ecoando), que só percebíamos o clima de sauna nas paradas.

 

Até a próxima trilha.

 

Abraços,

 

Cássio Garcez

Coordenador

 

P.s.: não deixe de ver as fotos deste e de outros passeios, na seção Galeria de Fotos.

ILHAS MARICÁS

Como esta atividade teve que ser cancelada devido ao aumento do tamanho das ondas no litoral do Rio de Janeiro, não há diário de trilha da mesma.

CASA DA PEDRA – 21/01/2018

O dia amanheceu nublado e com pancadas de chuva isoladas, mas indicando que iria firmar mais tarde.

 

Assim, como o grupo era bem caminheiro e corajoso, ninguém desistiu da atividade. E, como prêmio por esta perseverança, fomos presenteados com condições quase ideais para se caminhar nesta época do ano – como teto de nuvens, pouca gente na trilha e mar calmo e limpo para o banho. A única ressalva foi o clima de sauna, que nos fez suar às bicas, especialmente na volta.

 

Chegamos à Casa da Pedra – recanto rochoso às margens da Enseada de Itaipu e dividido entre o Parque Estadual da Serra da Tiririca e a Reserva Extrativista Marinha de Itaipu -, às 9h, depois de vencermos o trecho mais desafiador do roteiro: a rampa natural de pedra.

 

No entanto, os trechos de mato mais fechado e espinhoso que encontramos até ali também exigiram bastante dos caminhantes. Tanto que teve gente toda ralada dos tombos e das rasteiras dos arranha-gatos. Mas nada que a água salgada não curtisse.

 

Antes de entrarmos na água, fizemos um lanche rápido. O teto de nuvens era tão formidável, que não precisamos nos refugiar embaixo de sombra de pedras ou de árvores em momento algum.

 

Para facilitar e tornar mais seguro o mergulho, todos estavam calçados com papetes, sapatilhas ou tênis, seguindo minhas recomendações, já que as cracas, os mexilhões e os ouriços das rochas entremarés não perdoam os pés de ninguém.

 

Já para proporcionar mais conforto dentro d’água, levei as famigeradas bóias infantis, que o pessoal sempre faz muita gozação, mas que no final das contas acabam sendo extremamente concorridas.

 

Ficamos assim, curtindo aquele refresco extraordinário longe da muvuca, do barulho e de banhistas sem educação que infestam as praias no verão.

 

Naquele paraíso (quase) particular, passavam por nós praticantes de stand up, pescadores amadores e aves marinhas. Cada um na sua e todos integrados àquele lugar que, mesmo com todas as agressões que vem sofrendo nas últimas décadas – como poluição de botas-fora, fundeio de suplyes e infestação por lixo flutuante -, continua sendo extraordinário.

 

Saímos da água quando já estávamos com frio – privilégio de poucos nessa época e nessas bandas. E ficamos nos secando com toda a calma do mundo.

 

Só neste momento, apareceram duas moças, que acharam que éramos gringos (num diálogo hilariante com uma de nossas caminhantes).

 

Com elas veio um labrador, que acabou se juntando com os dois cães que vieram nos acompanhando sem que quiséssemos desde o início da trilha. Companhia esta que, ressalte-se, destoa dos objetivos conservacionistas dos parques, devido aos impactos que esses simpáticos animais causam aos ecossistemas visitados.

 

Três desses impactos, inclusive, tivemos a oportunidade de presenciar: corridas atrás da fauna, poluição sonora dos estridentes latidos e até destruição da flora (flagrei uma bromélia sendo destruída por um dos cães, na provável tentativa de matar a sede com a água nela acumulada). Isso sem contar com os bloqueios da trilha que eles volta e meia faziam, ao simplesmente empacar no meio delas.

 

Ou seja, um problema que, embora subestimado e muitas vezes negligenciado por apaixonados por cães, precisa ser equacionado e resolvido, para evitar prejuízos maiores à dinâmica ecológica local.

 

Começamos o retorno por volta das 10h30, chegando de volta ao ponto de partida às 12h.

 

Mas, pouco antes de descermos o morro, notamos que uma participante de outro grupo que ia alguns passos adiante de nós, carregava várias bromélias, certamente retiradas da mata – prática esta proibida por lei e extremamente prejudicial à integridade dos ecossistemas nativos, a qual pode inclusive render multa e até cadeia.

 

No intuito de tentar evitar esse despropósito que também é crime ambiental, me adiantei e abordei primeiramente os líderes desse grupo (que não identificarei, por questões éticas), informando ser aquele local um parque estadual, onde é proibido por lei qualquer tipo de coleta. Lembrei aos mesmos que era sua obrigação conhecer essas regras e zelar pelo seu cumprimento. Felizmente a dupla reconheceu seu erro e se comprometeu a não repeti-lo.

 

Só então me dirigi à autora da coleta, explicando os impactos negativos que isso poderia acarretar à biodiversidade daquela unidade de conservação, solicitando que ela me desse as bromélias, me comprometendo a devolvê-las posteriormente ao local de onde haviam sido retiradas (local este inconfundível, pois era o único onde havia aquela espécie de bromélia, em flor, junto à trilha).

 

Esta reinserção daquelas plantas em seu hábitat natural foi feito na quarta-feira posterior à caminhada, junto com dois guarda-parques do Peset, conforme registro fotográfico (disponível na galeria de fotos desta atividade, disponível em: .

 

Enfim, além de uma caminhada proveitosa – mesmo em dia de calor de sauna úmida -, ainda contribuímos para a proteção da biodiversidade do Morro das Andorinhas. Nada além de nossa obrigação, destaco.

 

Até a próxima trilha!

 

Abraços,

 

Cássio Garcez

Coordenador

 

OBSERVAÇÃO DE PÁSSAROS NA REGUA

Primeiramente, uma correção no título deste roteiro: ao invés de “pássaros”, deveríamos ter adotado a palavra “aves” para designar os animais que prioritariamente planejávamos observar (sem a pretensão de identificá-los, como fazem os clubes de observadores de aves, já que este era o nosso primeiro e mais estrito contato com essa bela e importante atividade).

 

Isso porque, os pássaros são uma ordem (dos passeriformes) pertencente à classe dos animais (aves) vertebrados que possuem corpo recoberto de penas, bico sem dentes e outras características peculiares.

 

Daí, todo pássaro é ave mas nem toda ave é pássaro. Além do mais, não observaríamos apenas pássaros, mas também aves em nossa atividade, daí a ressalva.

 

Embora essa classificação ainda gere controvérsias no meio acadêmico, é bem fácil de se identificar os pássaros: eles são pequenos, geralmente canoros (ou seja, cantam) e pertencem à mais numerosa ordem de espécies de aves do Brasil. Para saber mais, acesse: http://passarinhando.com.br/index.php/component/k2/item/918-observacao-de-aves-ou-passaros.

 

Pensando bem, talvez o melhor título desta viagem de um dia do Ecoando, fosse: Observação da biodiversidade na REGUA, já que este era realmente o nosso objetivo maior (especialmente a anta recentemente introduzida lá). Tanto quanto a integração que pretendíamos ter (e que realmente tivemos) junto àquele lugar de cura da natureza, de troca e de conhecimento. Mas enfim, como era uma estreia, acabou ficando aquele título mesmo.

 

Voltando ao relato da atividade, o dia estava ensolarado e fresco nas primeiras horas da manhã, principalmente na REGUA, que é a abreviação para Reserva Ecológica de Guapiaçu. A partir do meio-dia apenas é que a temperatura começou a ficar bem alta, com aquela sensação típica de abafamento, devido à umidade.

 

Chegamos à sede dessa Reserva Particular do Patrimônio Natural às 8h em ponto, iniciando a caminhada 15 minutos depois, tempo suficiente para nos arrumarmos e fazermos um rápido bate-papo (onde cada um se apresentou ao lugar, foram repassadas recomendações de conduta consciente em ambiente natural e realizado um aquecimento muscular).

 

Já neste local, que é bastante movimentado com o vai e vem de pesquisadores e funcionários, tivemos a chance de ver juritis (uma espécie de pomba silvestre), um gavião (que não consegui identificar a espécie) e bem-te-vis.

 

Ao invés de entrar logo na Trilha Amarela, ou dos Alagados, nosso trajeto em um dos mais cênicos e fáceis roteiros desse local, levei a dupla de caminhantes até a torre de observação próxima à pousada que faz parte da própria REGUA, para elas terem uma noção da amplitude da área protegida e do trajeto que faríamos.

 

Ali, além de falar sobre a importância da Mata Atlântica, contei um pouco sobre a história da criação dessa unidade de conservação, iniciada em 1998 a partir de uma fazenda que foi transformada em santuário de biodiversidade, por um casal visionário, Nicholas e Raquel Locke, apaixonados não apenas pela natureza, mas também por justiça social.

 

Segundo matéria do Jornal O Globo (disponível, em: https://oglobo.globo.com/rio/bairros/projeto-em-cachoeiras-de-macacu-protege-reserva-do-guapiacu-13685522#ixzz54fOEp6Hw), tudo começou com uma punição familiar: ou o então jovem londrino Nicholas estudava, ou teria que cuidar da fazenda da família no Brasil.

 

Nicholas optou pela segunda alternativa e por transformar a fazenda num lugar de restauração da natureza, contando com a ajuda dos próprios moradores das comunidades próximas, depois que um visitante, outro londrino, se encantou com a biodiversidade ali existente.

 

Junto com a sua esposa e seus filhos, Thomas e Micaela, empregando mão de obra local – que conta inclusive com ex-caçadores -, e contando com apoios de grandes empresas e de órgãos ambientais, o empreendimento cresceu, amadureceu, ganhou projeção internacional e é cada vez mais respeitado por seu trabalho em reverter o processo histórico de degradação da Mata Atlântica.

 

Essas e outras informações (como o projeto de construção de uma represa para abastecimento de água da Região Leste Fluminense, que ameaça a sobrevivência e a produção agrícola de aproximadamente 80 famílias de lavradores de Guapiaçu) eu ia repassando às caminhantes, à medida em que íamos andando e visitando os recantos.

 

Depois dessa primeira etapa, retornamos e só então entramos na Trilha Amarela, uma das várias abertas à visitação controlada na Reserva.

 

Nossa meta inicial era chegar ao primeiro abrigo, onde teríamos mais chance de ver animais. Isso porque, esta é uma estrutura construída especificamente para disfarçar a presença humana e assim possibilitar observações mais completas da fauna.

 

Fomos brindados logo de cara com a visão de uma família de 14 capivaras, a aproximadamente 20 metros de nós, descansando numa ilha deste primeiro lago. Pouco tempo depois, as mesmas nadaram em fila indiana até outro local, proporcionando outro delicioso espetáculo.

 

Embora houvesse poucas aves visíveis – entre elas frangos d’água, garças, talvez uma marreca-cabocla, viuvinhas, anus-coroca (Crotophaga major), anus pretos (Crotophaga ani) e gaviões, fora aquelas que só ouvíamos – como a choca -, o cenário daqueles lagos espelhados, cercados por vegetação em vários estágios de recuperação e com a moldura das montanhas por detrás, já teria valido por si só a visita. Sem contar o céu de azul profundo, com algumas poucas nuvens algodoais se formando no topo dos morros mais altos. Lindo!

 

Ficamos algo em torno de meia hora ali, no abrigo, nos deleitando com aquele camarote que tinha até ar condicionado natural: um ventinho fresco que entrava pela lateral esquerda daquela construção, dando um refresco providencial. Aproveitamos a oportunidade inclusive para lanchar.

 

Continuando pelos largos e bem cuidados caminhos, íamos apreciando as paisagens, tentando identificar as aves em suas vocalizações ou reconhecer as árvores que vem sendo plantadas ano após ano no local, aos milhares.

 

Às 10h, chegamos ao abrigo suspenso, outro posto de observação de aves, desta vez elevado. Embora mais emocionante que o primeiro, por estar a aproximadamente 5 metros do solo, a visão do lago encontra-se bloqueada por galhos. Daí, o que vale mesmo nessa estrutura é a aventura de subir numa quase casa na árvore.

 

Às 11h30, chegávamos ao final do trajeto de aproximadamente 3 quilômetros. Como esse término se deu mais cedo do que eu previra, sugeri às meninas fazermos um trecho da Trilha Marrom, que atravessa áreas que foram recuperadas mais recentemente que na Trilha Amarela – embora nem notássemos isso.

 

Assim, depois de passar a ponte suspensa, seguimos pela trilha bem mais estreita e fechada, indicando inclusive estar sendo pouco utilizada por visitantes. Como não havia atrativos marcantes na mesma e percebendo que a dupla já não tinha tanta empolgação quanto na trilha anterior, resolvi antecipar o encerramento daquela, aproveitando para sair do trajeto por um de seus atalhos, construídos mesmo para esses encurtamentos.

 

Retornamos ao Andarilho (a minivan do Ecoando) às 12h30, embarcando logo a seguir. Nosso próximo destino agora era a Prainha, remanso do Rio Guapiaçu localizado bem próximo ao centrinho urbano dessa localidade, cujo topônimo tupi significa “guapira (lugar onde se inicia um vale) grande”.

 

Ao chegar lá, no entanto, notamos o que eu já desconfiava: de que, por ser esse local uma das poucas áreas de lazer da comunidade, a quantidade de gente era grande nos poucos metros quadrados da Prainha. Por sorte, havia outros remansos, a montante do rio, com bem menos gente. E também mais limpos.

 

Escolhemos um desses recantos ribeirinhos mais privativo, para tomarmos nosso demorado banho nas cristalinas e límpidas águas desse rio que abastece, junto com o Macacu e já abaixo do limite, a Região Leste Metropolitana. Mas não demoramos tanto assim, já que as nuvens iam se avolumando cada vez mais nas serras, indicando que o temporal não iria demorar a cair.

 

Dito e feito. Alguns minutos depois de termos saído do lugar, por volta das 14h, as pancadas de chuva começaram,

 

No restaurante Tango & Carne, ainda em Cachoeiras de Macacu, onde paramos para almoçar, choveu bastante. Mas, como estávamos muito bem acomodados, bem servidos de uma comida de qualidade e seguros, simplesmente aproveitamos a beleza dos pingos de chuva iluminados pelo sol.

 

Pelo visto e pelos comentários, esse passeio que pode ser feito inclusive por idosos e crianças pequenas foi aprovado e continuará na programação do Ecoando.

 

Veja as fotos desta e de outras atividades do grupo, em Galeria de Fotos de nosso site:  http://www.ecoando.eco.br/galeria-de-fotos/

 

Abraços,

 

Cássio Garcez
Coordenador